Como séries brasileiras conquistaram plataformas globais
A evolução da narrativa audiovisual brasileira que transformou produções locais em fenômenos internacionais, abrindo caminho para uma nova era de representatividade e diversidade cultural nas telas do mundo
A cena se abre com uma favela carioca sob a luz do amanhecer. Um jovem olha para o horizonte da cidade, enquanto uma narração em português sem legendas imediatas guia a história. Esta não é mais uma cena incomum nas principais plataformas de streaming do mundo. O que antes era considerado conteúdo de nicho, limitado pelas fronteiras nacionais e barreiras linguísticas, tornou-se uma força transformadora na indústria do entretenimento global. A conquista das plataformas internacionais por séries brasileiras não foi um acidente; foi o resultado de décadas de evolução técnica, maturação narrativa e uma mudança fundamental na forma como o mundo percebe o audiovisual brasileiro.
Há apenas uma década, a presença de produções brasileiras em plataformas globais era mínima e frequentemente estereotipada. Quando apareciam, eram geralmente documentários sobre futebol, carnaval ou problemas sociais, raramente ficção dramática com complexidade e universalidade. Hoje, séries como “3%”, “Bom Dia, Verônica” e “Coisa Mais Linda” são celebradas por audiências em mais de 190 países, conquistando não apenas espectadores, mas também reconhecimento crítico e prêmios internacionais. Esta transformação representa muito mais do que sucesso comercial; é uma redefinição da identidade cultural brasileira no cenário global.
Mas como esta mudança ocorreu? Quais foram os fatores técnicos, criativos e econômicos que permitiram que histórias brasileiras, contadas em português e abordando temas locais, encontrassem ressonância universal? E o que esta conquista significa para o futuro do audiovisual brasileiro e para a representação cultural global? Para responder a estas questões, precisamos voltar às raízes desta revolução silenciosa.
As fundações: da TV aberta ao boom do streaming
A história das séries brasileiras nas plataformas globais não começa com o Netflix ou a Amazon; começa muito antes, nas décadas de 1970 e 1980, quando as telenovelas brasileiras já dominavam mercados internacionais. Produções como “Escrava Isaura” e “Dona Xepa” foram exportadas para mais de 80 países, provando que narrativas brasileiras podiam transcender fronteiras culturais. No entanto, estas eram exceções em um mercado dominado por Hollywood e pela produção em massa para o mercado doméstico.
A era das TVs abertas moldou gerações de profissionais e estabeleceu padrões técnicos e narrativos que ainda influenciam o audiovisual brasileiro. Redes como Globo, Record e SBT desenvolveram uma expertise em produção de conteúdo de alta qualidade com orçamentos limitados, criando um ecossistema de talentos – roteiristas, diretores, atores, técnicos – que dominaram a arte de contar histórias com eficiência e emoção. Esta base profissional seria crucial quando o mercado global se abriu décadas mais tarde.
No entanto, a televisão aberta também impôs limitações significativas. A dependência de publicidade e audiência imediata favoreceu formatos previsíveis e conservadores. Temas complexos, narrativas ousadas e experimentação visual eram frequentemente sacrificados em nome da acessibilidade imediata. O resultado foi uma indústria com grande capacidade técnica, mas com receio de assumir riscos criativos que poderiam atrair audiências globais mais exigentes.
“Nós aprendemos a contar histórias com eficiência brutal na TV aberta. Era preciso prender a audiência em cinco minutos, resolver conflitos em trinta, e sempre deixar um gancho para o próximo capítulo. Isto nos deu disciplina, mas também nos limitou criativamente por muito tempo.”
Esta reflexão de um veterano roteirista brasileiro que trabalhou tanto em novelas quanto em séries para streaming ilustra o paradoxo da formação profissional brasileira. A expertise técnica desenvolvida nas TVs abertas foi fundamental para a qualidade das produções atuais, mas a mentalidade comercial também teve que ser superada para conquistar o mercado global.
A transição para o streaming começou timidamente na década de 2010, quando plataformas como Netflix e Amazon começaram a investir em conteúdo local para mercados específicos. No Brasil, o primeiro grande movimento foi a aquisição de séries existentes como “Avenida Brasil” e “Lado a Lado” pela Netflix em 2015. Estes eram sucessos domésticos com qualidade técnica comprovada, mas ainda seguiam fórmulas tradicionais da televisão aberta.
O verdadeiro ponto de virada veio em 2016 com o lançamento de “3%”, a primeira série original brasileira produzida exclusivamente para a Netflix. Criada por Pedro Aguilera e César Charlone, a série de ficção científica foi filmada em português, com elenco e equipe majoritariamente brasileiros, mas com uma visão global desde o conceito. O investimento foi significativo – cerca de R$ 25 milhões para a primeira temporada – e a qualidade técnica rivalizava com produções internacionais de grande orçamento.
O impacto de “3%” foi imediato e transformador. A série não apenas atraiu milhões de espectadores no Brasil, mas também conquistou audiências em países como Estados Unidos, Reino Unido, México e Japão. Mais importante do que os números foi a recepção crítica: pela primeira vez, uma série brasileira contemporânea era analisada em pé de igualdade com produções de Hollywood e Europa, não como uma curiosidade exótica.
Este sucesso abriu as portas para outras produções. Em 2018, “O Mecanismo”, criada por José Padilha em parceria com Elena Soarez, trouxe um thriller político com elenco estrelado (Selton Mello, Carol Abras) e produção de alto nível para a Netflix. Embora controversa em seu conteúdo, a série demonstrou que o Brasil poderia produzir conteúdo para adultos com complexidade narrativa e técnica internacional.
A Amazon Prime Video também entrou na disputa em 2020 com “Bom Dia, Verônica”, baseada no livro de Raphael Montes e Ilana Casoy. A série policial com elementos de thriller psicológico, estrelada por Tainá Müller e Eduardo Moscovis, foi um sucesso crítico e comercial, sendo renovada para múltiplas temporadas e distribuída globalmente.
Estes exemplos não são isolados; representam uma mudança estrutural na indústria audiovisual brasileira. Pela primeira vez, produtores brasileiros tinham acesso a orçamentos compatíveis com padrões internacionais, liberdade criativa para explorar temas complexos, e uma plataforma global para distribuir seu trabalho sem as limitações das grades televisivas tradicionais.
Elementos-chave do sucesso global
O sucesso das séries brasileiras nas plataformas globais não foi resultado da sorte ou de um único fator. Foi uma combinação estratégica de elementos técnicos, criativos e comerciais que criaram a tempestade perfeita para esta conquista internacional.
Qualidade técnica impecável foi o primeiro requisito não negociável. As plataformas globais exigem padrões de produção que rivalizam com o melhor de Hollywood. Isto significou investimento em equipamentos de última geração, contratação de profissionais com experiência internacional e adoção de processos de produção modernos. Séries como “Cidade Invisível” e “Irmaos” demonstram uma qualidade visual que elimina qualquer percepção de “produção de segunda linha”.
A cinematografia em “Cidade Invisível”, por exemplo, utiliza lentes de alta definição, iluminação cinematográfica e movimentos de câmera complexos que criam uma atmosfera única onde o folclore brasileiro se encontra com o mundo contemporâneo. O nível técnico desta produção não apenas atende aos padrões globais; em muitos aspectos, os supera, oferecendo uma estética visualmente distinta que se torna parte da identidade da série.
Narrativas universais com raízes locais é talvez o elemento mais crucial para o sucesso global. As séries brasileiras que conquistaram o mundo não tentaram apagar sua identidade cultural para agradar ao público internacional; pelo contrário, encontraram temas universais dentro de contextos específicos brasileiros. “3%” explora desigualdade social e meritocracia através de uma distopia futurista, temas que ressoam em qualquer sociedade. “Coisa Mais Linda” aborda o empoderamento feminino e a luta por espaço no mercado de trabalho através do contexto do Rio de Janeiro nos anos 1950, mas suas mensagens são universais.
Esta abordagem contrasta fortemente com tentativas anteriores de “internacionalizar” produções brasileiras, que muitas vezes resultavam em histórias genéricas sem identidade clara. O sucesso atual vem justamente da autenticidade – contar histórias brasileiras com honestidade e profundidade, confiando que a humanidade das personagens e a universalidade dos temas criarão conexão com audiências globais.
Representatividade autêntica é outro fator transformador. As plataformas globais, sob pressão para aumentar a diversidade em suas programações, encontraram no Brasil uma fonte rica de histórias que refletem a complexidade racial, social e cultural do país. Séries como “Sintonia”, que retrata a vida em uma favela paulista com personagens negros, LGBTQ+ e periféricos em papéis protagonistas e complexos, oferecem uma representação que faltava no entretenimento global.
“Nós não queríamos fazer uma série sobre a periferia para o público da zona sul. Queríamos fazer uma série que mostrasse a periferia como ela é, com todas as suas contradições, sonhos e realidades. Surpreendentemente, foi este olhar autêntico que fez a série funcionar no mundo inteiro.”
Esta é a observação de KondZilla, criador de “Sintonia”, cuja série se tornou um dos maiores sucessos brasileiros na Netflix global. O fenômeno demonstra que o público internacional valoriza autenticidade sobre estereótipos, e que histórias específicas, quando contadas com verdade, podem ter ressonância universal.
O modelo de distribuição do streaming eliminou barreiras que existiam por décadas no mercado de exportação de conteúdo. Nas TVs tradicionais, uma série brasileira precisava passar por múltiplas barreiras: venda para canais internacionais, dublagem ou legendagem em dezenas de idiomas, adaptação cultural para diferentes mercados. O streaming removeu estas barreiras técnicas e econômicas.
Quando uma série estreia na Netflix ou Amazon, ela está disponível simultaneamente em quase todos os países do mundo, com legendas e dublagens profissionais em múltiplos idiomas. O algoritmo das plataformas também ajuda a descoberta: um espectador nos Estados Unidos que assiste a uma série coreana pode ser recomendado uma série brasileira com temas similares. Esta democratização do acesso é fundamental para o sucesso global.
Investimento em talentos locais foi uma estratégia inteligente das plataformas. Em vez de importar diretores e roteiristas estrangeiros para “supervisionar” produções brasileiras, as plataformas globais confiaram em talentos locais com visão global. José Padilha (“O Mecanismo”), César Charlone (“3%”), Fernando Meirelles (envolvido em várias produções), Carolina Jabor (“Coisa Mais Linda”) – todos são profissionais brasileiros com experiência internacional que mantêm sua identidade cultural enquanto produzem conteúdo para audiências globais.
Esta confiança nos talentos locais não apenas resulta em histórias mais autênticas, mas também desenvolve uma geração de profissionais brasileiros que dominam tanto a língua visual global quanto a narrativa brasileira. O resultado é um ecossistema sustentável onde o conhecimento é transferido e a qualidade continua a melhorar a cada produção.
Impactos na indústria e na cultura
O sucesso das séries brasileiras nas plataformas globais gerou impactos profundos que vão muito além dos números de audiência e receita. Estes impactos transformaram a indústria audiovisual brasileira, alteraram a percepção cultural do país no exterior e criaram novas oportunidades para profissionais e comunidades.
Transformação econômica da indústria é o impacto mais visível. Antes do boom do streaming, a indústria audiovisual brasileira dependia fortemente de verbas públicas (através da Ancine e leis de incentivo) e publicidade televisiva. O modelo era volátil e frequentemente politizado. As plataformas globais trouxeram um modelo de negócios sustentável baseado em investimento direto em conteúdo de qualidade.
O valor médio de uma temporada de série para streaming no Brasil aumentou exponencialmente. Enquanto uma série para TV aberta custava cerca de R$ 500 mil por episódio na década de 2010, produções como “Coisa Mais Linda” e “Bom Dia, Verônica” atingem orçamentos de R$ 2-3 milhões por episódio, níveis que permitem qualidade técnica internacional. Este investimento não apenas melhora a qualidade das produções, mas também gera empregos qualificados e desenvolve a cadeia produtiva local.
Desenvolvimento de talentos foi outro impacto significativo. O aumento dos orçamentos e a demanda por qualidade internacional criaram oportunidades para profissionais brasileiros em todas as áreas: roteiristas, diretores de fotografia, designers de produção, editores, especialistas em efeitos visuais. Muitos destes profissionais, após trabalhar em séries para streaming, passaram a ser contratados para produções internacionais, levando expertise brasileira para o mundo.
Um exemplo notável é o diretor de fotografia Adrian Teijido, que trabalhou em “Cidade Invisível” e hoje é procurado para produções globais. Sua experiência em combinar tecnologia moderna com estética cinematográfica brasileira tornou-se um diferencial competitivo no mercado internacional. Histórias como esta se multiplicam em todas as áreas técnicas do audiovisual.
Mudança na percepção cultural internacional é talvez o impacto mais sutil, mas também o mais transformador. Por décadas, a imagem do Brasil no exterior foi definida por estereótipos: futebol, carnaval, violência urbana e pobreza extrema. As séries brasileiras nas plataformas globais ofereceram uma narrativa mais complexa e matizada da sociedade brasileira.
“3%” mostrou um Brasil futurista onde questões de desigualdade são exploradas através de uma lente de ficção científica. “Coisa Mais Linda” retratou o Rio de Janeiro dos anos 1950 como um centro cultural vibrante com complexidades sociais e raciais. “Sintonia” apresentou a periferia paulista não como um local de violência, mas como um ecossistema de sonhos, criatividade e resiliência. Estas narrativas criaram uma percepção mais rica e humana do Brasil no imaginário global.
Impacto na representatividade local também foi significativo. O sucesso internacional de séries com protagonistas negros, LGBTQ+ e de classes populares incentivou mais produções com diversidade no Brasil. O mercado doméstico, que antes era cético sobre o apelo comercial de histórias diversas, viu que estas narrativas não apenas funcionavam artisticamente, mas também tinham apelo comercial global.
Isto criou um ciclo virtuoso: mais diversidade nas telas leva a mais diversidade nas equipes de produção, que por sua vez cria narrativas ainda mais autênticas e inclusivas. O resultado é uma indústria audiovisual brasileira que está gradualmente se tornando mais representativa da sociedade que serve.
O desafio do equilíbrio comercial e artístico permanece um tema complexo. Enquanto as plataformas globais oferecem recursos e alcance sem precedentes, elas também têm expectativas comerciais específicas. O sucesso de uma série depende não apenas de sua qualidade artística, mas também de sua capacidade de atrair e reter assinantes em múltiplos mercados.
Isto pode criar pressões para padronização ou para evitar temas muito específicos que possam não ter apelo global imediato. O desafio para os criadores brasileiros é navegar este equilíbrio delicado – manter a autenticidade cultural enquanto cria conteúdo que funcione em uma escala global. As séries mais bem-sucedidas são aquelas que encontraram esta síntese perfeita.
Desafios e críticas do modelo atual
Apesar dos sucessos evidentes, o modelo de parceria entre produtoras brasileiras e plataformas globais enfrenta críticas significativas que apontam para desafios importantes a serem superados para garantir a sustentabilidade e a diversidade a longo prazo.
A dependência de plataformas estrangeiras é a crítica mais fundamental. A indústria audiovisual brasileira, que antes dependia do Estado e da publicidade nacional, agora depende fortemente de decisões tomadas em escritórios na Califórnia e em Seattle. Quando uma plataforma decide reduzir investimentos em um mercado específico, ou quando algoritmos mudam e reduzem a visibilidade de certos conteúdos, todo o ecossistema sofre.
O caso da HBO Max no Brasil ilustra este risco. Após um período inicial de investimento agressivo em conteúdo local, a plataforma reduziu significativamente seus orçamentos em 2022-2023, cancelando várias séries em desenvolvimento e deixando profissionais sem trabalho. Esta volatilidade demonstra que o modelo atual, embora benéfico no curto prazo, pode não ser sustentável no longo prazo sem diversificação de fontes de receita.
A concentração de recursos em poucas produções é outro problema. As plataformas globais tendem a investir grandes somas em poucas séries de alto perfil, enquanto produções menores ou com temas mais específicos lutam para encontrar financiamento. Isto pode levar a uma homogeneização do conteúdo, onde apenas histórias com potencial comercial global recebem investimento.
Por exemplo, enquanto “3%” e “Bom Dia, Verônica” receberam orçamentos multimilionários, séries que abordam temas indígenas, culturas regionais específicas ou narrativas experimentais frequentemente não conseguem atrair o mesmo nível de investimento. O risco é que a diversidade cultural brasileira seja representada apenas através de poucos estereótipos que funcionam comercialmente no mercado global.
O impacto na produção independente também é preocupante. Antes do domínio das plataformas, produtoras independentes brasileiras tinham acesso a editais públicos, coproduções internacionais e vendas para TVs abertas. Hoje, muitos destes canais foram substituídos pelo modelo de streaming, que favorece grandes produtoras com capacidade de produzir conteúdo em escala e dentro de prazos apertados.
Isto pode marginalizar cineastas e roteiristas independentes que não se encaixam no modelo comercial das plataformas, especialmente aqueles que trabalham com documentários, cinema de arte ou narrativas experimentais. O risco é que a diversidade de vozes no audiovisual brasileiro seja reduzida em favor de um modelo mais padronizado e comercial.
A questão da propriedade intelectual é frequentemente subestimada. Nas negociações com plataformas globais, as produtoras brasileiras geralmente cedem os direitos internacionais e muitas vezes os direitos de longo prazo sobre suas criações. Isto significa que, embora os criadores recebam pagamento inicial e royalties por assinaturas, eles perdem o controle sobre o futuro de suas obras e a capacidade de explorar outros mercados ou formatos.
Em contraste, em mercados como a Coreia do Sul e a Dinamarca, os criadores mantêm maior controle sobre seus trabalhos, permitindo-lhes construir carreiras sustentáveis e negociar melhores condições ao longo do tempo. O modelo brasileiro, embora lucrativo inicialmente, pode limitar o desenvolvimento de uma indústria verdadeiramente independente e sustentável.
O desafio da formação de novos talentos também persiste. Embora as grandes produções ofereçam oportunidades para profissionais experientes, o acesso à indústria para jovens talentos de regiões periféricas ou sem conexões ainda é limitado. As plataformas globais tendem a trabalhar com equipes estabelecidas e redes de contatos consolidadas, o que pode perpetuar desigualdades existentes na indústria.
Programas de mentoria e iniciativas de inclusão estão surgindo, mas ainda são insuficientes para democratizar verdadeiramente o acesso às oportunidades criadas pelo boom do streaming. O risco é que a próxima geração de talentos audiovisuais brasileiros não reflita a diversidade do país, repetindo padrões de exclusão que existiam antes da chegada das plataformas globais.
O futuro: sustentabilidade e diversificação
Enquanto o setor audiovisual brasileiro olha para o futuro, é claro que o modelo atual precisa evoluir para garantir sustentabilidade a longo prazo e maior diversidade de vozes. Várias estratégias emergem como cruciais para este próximo capítulo.
O desenvolvimento de plataformas brasileiras é uma necessidade estratégica. Embora as parcerias com plataformas globais continuem sendo importantes, o Brasil precisa desenvolver sua própria infraestrutura de distribuição digital. Iniciativas como o Globoplay, o NOW (da Claro) e o Telecine Play estão começando a investir em conteúdo original, mas ainda estão em escala muito menor que as gigantes internacionais.
O desafio é criar plataformas brasileiras com modelo de negócios sustentável que possam competir globalmente. Isto requer não apenas investimento em tecnologia e conteúdo, mas também inovação em modelos de receita que não dependam exclusivamente de assinaturas. Parcerias com empresas de telecomunicações, modelos híbridos com publicidade segmentada e vendas internacionais de biblioteca são algumas das estratégias sendo exploradas.
A internacionalização das produtoras brasileiras é outra estratégia promissora. Produtoras como a Brasil Paralelo, a Losbragas e a Fábrica de Filme estão começando a expandir suas operações para outros mercados latino-americanos e até para Europa e Estados Unidos. Esta internacionalização não significa abandonar a identidade brasileira, mas sim exportar expertise e criar coproduções que mantenham a voz local enquanto alcançam audiências globais.
Um exemplo notável é o filme “O Auto da Compadecida”, que após seu sucesso no Brasil, inspirou adaptações em outros países latino-americanos. O modelo de criar conteúdo com identidade forte mas com estrutura narrativa universal pode ser replicado em séries, permitindo que produtoras brasileiras mantenham maior controle sobre suas obras enquanto expandem seu alcance.
A diversificação de fontes de financiamento é crucial para reduzir a dependência das plataformas globais. Isto inclui:
- Fortalecimento dos mecanismos públicos: Reforma da Ancine e leis de incentivo para torná-las mais ágeis e menos burocráticas
- Investimento privado estratégico: Criação de fundos de investimento especializados em audiovisual com retorno baseado em receita
- Coproduções internacionais equilibradas: Parcerias onde produtoras brasileiras mantêm maior controle criativo e financeiro
- Modelos de financiamento coletivo: Plataformas especializadas para audiovisual que conectem criadores diretamente com o público
A formação de talentos diversificados precisa ser prioridade. Programas de bolsas de estudo para jovens de periferias, oficinas técnicas em regiões fora dos grandes centros e mentoria por profissionais estabelecidos são essenciais para criar uma nova geração de talentos que reflita a diversidade do Brasil. O futuro do audiovisual brasileiro depende de vozes que hoje não têm acesso às salas de decisão.
A preservação da identidade cultural no contexto global é o desafio mais sutil. Enquanto buscamos sucesso internacional, é crucial manter a autenticidade das narrativas brasileiras. Isto significa resistir à tentação de criar conteúdo genérico que apague as particularidades culturais em nome da acessibilidade global. O sucesso internacional de séries brasileiras veio justamente de sua especificidade cultural, não de sua capacidade de imitar produções estrangeiras.
O futuro promissor está em encontrar o equilíbrio entre universalidade e especificidade – contar histórias brasileiras com temas que ressoem globalmente, mas sem perder a essência do que nos torna únicos. O público global demonstrou apetite por autenticidade, não por cópias.
Lições para outras indústrias culturais
A conquista das plataformas globais pelas séries brasileiras oferece lições valiosas que transcendem o audiovisual e podem ser aplicadas a outras indústrias culturais brasileiras, como música, literatura, artes visuais e games.
A importância da qualidade técnica é uma lição universal. Em um mercado global saturado de conteúdo, a qualidade técnica impecável não é um luxo; é um requisito mínimo para competir. Seja em música, onde a produção de estúdio precisa atingir padrões internacionais, ou em literatura, onde a tradução e edição precisam ser profissionais, o padrão técnico é a porta de entrada para o mercado global.
A autenticidade como diferencial competitivo é outra lição crucial. O sucesso das séries brasileiras veio não de tentar ser como Hollywood, mas de abraçar sua identidade cultural única. Outras indústrias culturais brasileiras podem aprender com isto – a música brasileira não precisa soar como pop americano para ter sucesso global; a literatura brasileira não precisa seguir fórmulas estrangeiras para ser apreciada internacionalmente. A autenticidade, quando combinada com qualidade técnica, é um poderoso atrativo global.
A construção de ecossistemas sustentáveis é talvez a lição mais importante. O sucesso do audiovisual brasileiro não foi apenas sobre produções individuais; foi sobre criar um ecossistema onde talentos são formados, infraestrutura é desenvolvida, e modelos de negócio sustentáveis são criados. Outras indústrias culturais precisam pensar de forma sistêmica, não apenas sobre obras individuais, mas sobre como construir ecossistemas que possam prosperar a longo prazo.
A tecnologia como aliada, não como fim é uma distinção importante. As plataformas de streaming são ferramentas poderosas de distribuição, mas o conteúdo de qualidade continua sendo o ativo mais valioso. Outras indústrias culturais devem usar a tecnologia para ampliar seu alcance, mas nunca perder de vista que a essência está no conteúdo e na experiência humana que ele proporciona.
A colaboração internacional como estratégia, não como dependência, é o modelo ideal. As melhores produções brasileiras para streaming foram aquelas que mantiveram controle criativo enquanto colaboraram com parceiros internacionais. Outras indústrias culturais podem buscar parcerias estratégicas que tragam recursos e expertise, mas que respeitem a autonomia e a identidade cultural brasileira.
O Brasil como protagonista cultural global
A conquista das plataformas globais pelas séries brasileiras não é apenas um sucesso da indústria do entretenimento; é um momento transformador na história cultural do Brasil. Pela primeira vez em décadas, o país está sendo percebido internacionalmente não apenas por seus recursos naturais ou seu potencial econômico, mas por sua capacidade de criar conteúdo cultural relevante e transformador.
Este momento exige responsabilidade. Com o alcance global vem a responsabilidade de representar o Brasil com nuance e profundidade, evitando tanto o ufanismo quanto a autocrítica excessiva. As séries brasileiras têm o poder de moldar percepções internacionais sobre o país, e este poder deve ser exercido com consciência e ética.
Mais importante, este sucesso abre caminho para que outras vozes brasileiras sejam ouvidas globalmente. Se o audiovisual pôde quebrar barreiras, por que não a música, a literatura, o design, a gastronomia? O Brasil tem uma riqueza cultural imensa que ainda não foi totalmente valorizada no cenário global. O sucesso das séries pode ser o catalisador para uma maior apreciação da cultura brasileira em todas as suas formas.
O futuro do audiovisual brasileiro depende da capacidade de aprender com os sucessos e fracassos do presente. O modelo atual, embora revolucionário, não é perfeito. Precisamos evoluir para um ecossistema mais diverso, sustentável e inclusivo, onde diferentes vozes possam ser ouvidas e diferentes histórias possam ser contadas.
Isto significa investir em talentos de todas as regiões do país, não apenas dos grandes centros. Significa criar espaço para narrativas indígenas, quilombolas, LGBTQ+ e de outras comunidades historicamente marginalizadas. Significa desenvolver tecnologias e modelos de negócio que sirvam às necessidades específicas do mercado brasileiro enquanto competem globalmente.
Mas acima de tudo, significa nunca perder de vista que o poder do áudio e do vídeo está na capacidade de conectar pessoas através de histórias. As séries brasileiras conquistaram o mundo não por sua tecnologia ou orçamentos, mas por sua humanidade – por sua capacidade de tocar corações e mentes em qualquer lugar do planeta através de histórias bem contadas.
Quando uma jovem em Tóquio se identifica com a luta de uma personagem em “Coisa Mais Linda”, quando um jovem em Berlim se inspira na resiliência dos personagens de “Sintonia”, quando um espectador em Lagos se vê refletido nas questões de desigualdade de “3%”, isto é mais do que entretenimento; é um lembrete poderoso de nossa humanidade compartilhada. Nesta conexão humana está o verdadeiro poder do audiovisual brasileiro e sua contribuição única para a cultura global.
O Brasil não precisa ser Hollywood para ter sucesso global. Precisa ser autenticamente brasileiro – complexo, contraditório, vibrante e humano. E é nesta autenticidade que reside o futuro não apenas do audiovisual brasileiro, mas da cultura brasileira como um todo no cenário global. As séries brasileiras já mostraram o caminho; cabe a todas as indústrias culturais do país seguir esta trilha com coragem, criatividade e compromisso com a verdadeira representação do que significa ser brasileiro no século XXI.




