A construção de personagens no audiovisual de ação
Como atores, roteiristas e diretores brasileiros desenvolvem figuras complexas em produções de ação que transcendem estereótipos e criam conexões emocionais autênticas com o público
O estouro de tiros ecoa, as perseguições de carro desafiam a física, as lutas coreografadas impressionam pela precisão. Mas por trás de cada cena de ação memorável no cinema e na televisão brasileira existe um trabalho invisível e meticuloso de construção de personagens que frequentemente passa despercebido pelo espectador casual. Ao contrário do que muitos imaginam, os heróis e vilões do gênero de ação não são figuras unidimensionais criadas para simplesmente preencher sequências de explosões e perseguições. São construções complexas, fruto de meses de pesquisa, preparação física e psicológica, e colaboração intensa entre atores, diretores, roteiristas e consultores especializados.
No Brasil, onde o gênero de ação enfrentou históricas dificuldades de financiamento e preconceito crítico, a construção de personagens ganha uma dimensão ainda mais crucial. Profissionais brasileiros descobriram que, sem orçamentos hollywoodianos para efeitos especiais, a autenticidade emocional e a profundidade psicológica dos personagens tornam-se os verdadeiros motores que sustentam as produções de ação nacionais. Esta é uma história sobre como transformar limitações em virtudes artísticas, criando figuras que respiram, sofrem, amam e lutam dentro de um gênero frequentemente associado apenas ao espetáculo visual.
O que torna este processo particularmente fascinante no contexto brasileiro é a necessidade constante de equilibrar universalidade e especificidade cultural. Um personagem de ação brasileiro precisa ressoar com plateias globais enquanto mantém raízes profundas em nossa realidade social, histórica e cultural. Esta dualidade não é um obstáculo; é uma oportunidade para criar narrativas que transcendem fronteiras justamente por sua autenticidade local. Quando bem executada, esta construção transforma o simples policial ou o criminoso em figuras que carregam em si as contradições, esperanças e lutas de toda uma sociedade.
A pesquisa como fundação: além dos clichês do gênero
Toda construção de personagem no audiovisual de ação começa muito antes das filmagens, nos arquivos, ruas e comunidades onde a realidade se revela mais complexa do que qualquer roteiro poderia imaginar. No Brasil, onde a violência e a segurança pública são temas carregados de nuances políticas e sociais, a pesquisa transforma-se em responsabilidade ética fundamental para evitar a perpetuação de estereótipos prejudiciais.
A imersão comunitária é uma prática crescente entre profissionais brasileiros que entendem que personagens autênticos nascem do contato direto com as realidades que pretendem representar. Para o filme “Tropa de Elite” (2007), o ator Wagner Moura não apenas estudou o comportamento de policiais do BOPE através de documentos oficiais, mas passou semanas acompanhando operações reais (como observador), conversando com oficiais em suas casas, e entendendo as pressões psicológicas que moldam estes profissionais. Esta imersão não buscava justificar ou condenar, mas compreender a humanidade por trás do uniforme.
“Não existe vilão que acorde pela manhã pensando em ser o vilão da história. Todo personagem acredita estar fazendo a coisa certa do seu ponto de vista. Meu trabalho como ator é encontrar esta lógica interna, mesmo quando ela contradiz minha própria moral.”
Esta reflexão de Lázaro Ramos dirigiu o filme “Medida Provisória” (2022), ilustra a abordagem brasileira contemporânea para personagens de ação. A busca não é por heróis perfeitos ou vilões caricatos, mas por figuras humanas cujas motivações, mesmo quando equivocadas, são compreensíveis dentro de seus contextos específicos.
A consultoria especializada tornou-se padrão em produções brasileiras sérias de ação. O filme “Polícia Federal: A Lei É para Todos” (2017) contou com consultoria direta de agentes da PF aposentados que não apenas orientaram sobre procedimentos técnicos, mas também compartilharam histórias pessoais sobre o custo emocional de combater o crime organizado no Brasil. Estes relatos informaram não apenas as ações dos personagens, mas suas reações emocionais, seus momentos de vulnerabilidade e suas relações familiares desgastadas.
No caso de personagens históricos, como em “Marighella” (2021), a pesquisa assume proporções quase acadêmicas. O ator Seu Jorge estudou não apenas os registros históricos do líder comunista, mas também entrevistou familiares, leu cartas pessoais e visitou locais significativos da luta armada no Brasil. Esta profundidade de pesquisa permitiu criar uma figura que não se reduzia ao estereótipo do guerrilheiro, mas mostrava também o homem que amava música, que tinha medos e dúvidas, e cuja jornada pessoal refletia as contradições de toda uma geração.
A contextualização socioeconômica é outro elemento frequentemente negligenciado em produções de ação internacionais, mas crucial para a autenticidade brasileira. Personagens não existem em vácuos sociais; suas escolhas, motivações e até mesmo suas habilidades físicas são moldadas por seus contextos de origem. Em “A Máquina” (2023), os personagens de operários que se tornam justiceiros não são simplesmente “bons contra maus”; suas ações são contextualizadas dentro de uma realidade de abandono estatal, precarização do trabalho e violência institucionalizada que torna a justiça pelas próprias mãos uma escolha compreensível, mesmo quando problemática.
Esta abordagem de pesquisa rigorosa não apenas enriquece os personagens, mas também protege as produções brasileiras de críticas válidas sobre representação irresponsável da violência. Quando o espectador sente que os personagens são reais, com histórias complexas e motivações compreensíveis, a ação torna-se veículo para discussão social, não apenas entretenimento vazio.
A transformação física e psicológica: o corpo como narrativa
No audiovisual de ação, o corpo do ator não é apenas um instrumento de performance; é um elemento narrativo fundamental que conta histórias através de sua transformação, habilidades e limitações. Profissionais brasileiros compreenderam que a credibilidade das sequências de ação depende diretamente da autenticidade física dos personagens, exigindo preparações intensivas que vão muito além do treinamento convencional.
A preparação física especializada em produções brasileiras de ação contemporâneas envolve uma abordagem multidisciplinar que combina artes marciais, condicionamento atlético e técnicas específicas de combate. Para “Tropa de Elite 2” (2010), o elenco passou por um programa de treinamento de seis meses desenvolvido em parceria com instrutores do BOPE real, que incluía não apenas técnicas de combate, mas também simulações de estresse psicológico para reproduzir fielmente as pressões enfrentadas por policiais em operações de alto risco.
Esta preparação física não visa apenas criar corpos visualmente impressionantes; busca desenvolver movimentos autênticos que reflitam a formação e experiência específica de cada personagem. O movimento de um ex-militar é diferente do de um lutador de rua, que por sua vez difere do de um policial formado em academia. Estas nuances são capturadas por preparadores físicos especializados que trabalham em estreita colaboração com diretores e atores para garantir consistência narrativa através do corpo.
A psicologia do combate é um aspecto frequentemente negligenciado em produções de ação internacionais, mas central para a abordagem brasileira que busca autenticidade emocional. O ator Irandhir Santos, que interpretou o delegado em “Polícia Federal: A Lei É para Todos”, trabalhou com psicólogos especializados em trauma para entender os efeitos psicológicos de confrontos violentos repetidos. Esta preparação permitiu criar uma performance onde a ação não era apenas física; cada tiroteio, cada perseguição, deixava marcas visíveis no personagem através de microexpressões, alterações no sono e mudanças sutis no comportamento interpessoal.
“Treinamos para o corpo, mas a verdadeira preparação é para a mente. Um personagem que passa por situações extremas de ação precisa mostrar as consequências psicológicas destas experiências, caso contrário, perdemos a conexão humana com o espectador.”
Esta observação de um preparador de elenco brasileiro com experiência em produções internacionais resume a evolução do gênero no país. A ação sem consequência emocional torna-se espetáculo vazio; a ação com impacto psicológico transforma-se em narrativa poderosa.
A linguagem corporal como identidade completa esta transformação física. No Brasil, onde a diversidade cultural se manifesta através de diferentes formas de ocupar o espaço e se mover, a linguagem corporal torna-se ferramenta narrativa essencial. Em “A Máquina”, os personagens operários não apenas treinam para luta; seus movimentos mantêm elementos de suas profissões originais – a postura do soldador, o jeito do carpinteiro segurar ferramentas, o equilíbrio do pedreiro em alturas. Estas características não são detalhes estéticos; são marcadores de identidade que mantêm os personagens enraizados em suas origens mesmo quando assumem papéis de ação.
Esta atenção à linguagem corporal estende-se além dos protagonistas. Vilões e antagonistas também recebem tratamento semelhante, com suas posturas, gestos e padrões de movimento refletindo seus backgrounds e motivações. Um criminoso que cresceu em favela terá uma forma diferente de se mover em espaços abertos comparado com um executivo corrupto acostumado a escritórios fechados. Estas diferenças sutis, quando capturadas com precisão, criam camadas de significado que enriquecem a narrativa sem necessidade de diálogos explicativos.
O diálogo entre roteiro e interpretação: escrita para a ação
A construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro depende fundamentalmente de um diálogo constante e produtivo entre roteiristas e atores, onde as palavras servem como ponte entre a intenção narrativa e a performance física. Este processo frequentemente desafia a noção tradicional de que o roteiro é uma escritura sagrada imutável, privilegiando em vez disso uma abordagem colaborativa que permite aos personagens evoluírem organicamente durante a produção.
A escrita de ação significativa no contexto brasileiro evoluiu para priorizar sequências que revelam caráter em vez de simplesmente impressionar visualmente. Bráulio Mantovani, roteirista de “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus”, desenvolveu uma técnica onde cada cena de ação serve a um propósito narrativo duplo: avançar a trama enquanto revela aspectos profundos dos personagens. No tiroteio final de “Tropa de Elite”, por exemplo, as escolhas táticas de cada policial refletem suas personalidades e jornadas individuais – o jovem recruta hesitante versus o veterano impiedoso.
Esta abordagem contrasta com o modelo hollywoodiano frequentemente criticado por priorizar sequências de ação como produtos independentes da narrativa principal. No Brasil, onde os recursos são limitados, cada cena de ação precisa justificar sua existência através de seu impacto no desenvolvimento dos personagens e no progresso emocional da história.
A colaboração ator-roteirista é outro elemento distintivo do processo brasileiro. Atores como Wagner Moura tornaram-se conhecidos por seu envolvimento profundo no desenvolvimento dos personagens, frequentemente sugerindo alterações nos diálogos e situações para aumentar a autenticidade psicológica. Em “Marighella”, Seu Jorge trabalhou diretamente com o roteirista para desenvolver cenas que mostrassem o lado humano do revolucionário – momentos de solidão, dúvida e conexão familiar que equilibravam as sequências de ação e resistência.
Este nível de colaboração exige flexibilidade por parte dos roteiristas e diretores, bem como maturidade dos atores para entender que suas sugestões devem servir à narrativa geral, não apenas a momentos individuais de destaque. O resultado é um processo criativo que valoriza a expertise de cada profissional: o roteirista traz estrutura e tema, o ator traz humanidade e detalhes comportamentais, e o diretor sintetiza estas contribuições em uma visão coerente.
A economia narrativa é particularmente importante no gênero de ação brasileiro, onde orçamentos restritos exigem eficiência máxima em cada cena. Isto significa que personagens frequentemente são desenvolvidos através de detalhes mínimos mas significativos – um gesto específico ao manejar uma arma, uma expressão fugaz durante um tiroteio, uma escolha de diálogo em um momento de crise. Em “Polícia Federal: A Lei É para Todos”, o personagem de Marcelo Serrado revela sua lealdade à equipe não através de longos discursos, mas através de pequenos gestos: sempre cobrir o parceiro em operações, lembrar datas importantes das famílias dos colegas, manter sempre um kit de primeiros socorros extra no carro.
Esta economia narrativa não é limitação; é virtude artística que força os criadores a confiar na inteligência do espectador para completar as lacunas emocionais. Quando bem executada, esta abordagem cria personagens mais memoráveis porque convida o público a participar ativamente da construção de significado, em vez de receber tudo explicitamente explicado.
A ética da representação: responsabilidade social na ação
No Brasil, onde a violência é uma realidade cotidiana para milhões de pessoas, a construção de personagens em produções de ação carrega uma responsabilidade ética que vai além do entretenimento. Profissionais brasileiros desenvolveram uma consciência aguda sobre o impacto social de suas narrativas, especialmente quando retratam temas sensíveis como segurança pública, criminalidade e justiça, levando a uma abordagem mais reflexiva e responsável do gênero.
A humanização de todos os lados emergiu como princípio ético fundamental nas melhores produções brasileiras de ação. Em vez de criar vilões unidimensionais ou heróis infalíveis, estas narrativas buscam mostrar a humanidade em todos os personagens, independentemente de seus papéis na trama. “Tropa de Elite” causou controvérsia justamente por humanizar tanto policiais corruptos quanto traficantes, forçando o espectador a confrontar a complexidade moral da violência urbana em vez de oferecer respostas simplistas.
Esta humanização não significa justificação de crimes ou violência; significa reconhecer que pessoas reais, com histórias complexas e motivações compreensíveis (mesmo quando erradas), estão por trás de ações extremas. Em “Marighella”, o personagem principal é retratado tanto como herói da resistência quanto como homem que comete erros, sofre perdas pessoais e questiona suas próprias escolhas. Esta complexidade evita a romantização perigosa da luta armada enquanto mantém a empatia do espectador.
A responsabilidade com comunidades retratadas tornou-se prática padrão em produções sérias. O filme “A Máquina” envolveu consultoria com sindicatos de trabalhadores e moradores de favelas para garantir que a representação de comunidades operárias e periféricas não caísse em estereótipos prejudiciais. Esta consultoria não apenas influenciou os diálogos e situações, mas também afetou a contratação de elenco secundário, com muitos papéis sendo preenchidos por pessoas reais das comunidades retratadas.
“Nossa primeira responsabilidade é com as pessoas cujas histórias estamos contando. Se vamos retratar uma comunidade, uma profissão ou uma realidade social, temos o dever ético de fazê-lo com respeito e precisão, mesmo dentro de um gênero de entretenimento como a ação.”
Esta posição, assumida publicamente por diretores brasileiros como José Padilha em entrevistas sobre “Tropa de Elite”, reflete uma maturidade profissional que entende o poder social do cinema além do lucro e da audiência.
A reflexão sobre consequências completa esta abordagem ética. Produções brasileiras de ação contemporâneas frequentemente mostram as consequências reais da violência – físicas, psicológicas e sociais – que muitas vezes são omitidas em produções internacionais do mesmo gênero. Em “Polícia Federal: A Lei É para Todos”, os personagens sofrem com estresse pós-traumático, perdem relacionamentos familiares e enfrentam crises de consciência após operações violentas. Estas consequências não são mostradas como fraquezas, mas como parte inevitável da realidade de quem vive em constante confronto.
Esta ênfase nas consequências serve a dois propósitos: aumenta a autenticidade dramática ao mostrar personagens mais humanos e complexos, e oferece uma narrativa mais responsável que não romantiza a violência como solução simples para problemas complexos. O espectador é convidado a refletir sobre os custos reais da ação, tanto para quem a pratica quanto para a sociedade como um todo.
A evolução do gênero: do nacional-estrangeiro ao cinema de ação autoral
A construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro passou por uma transformação significativa nas últimas duas décadas, evoluindo de adaptações simplificadas de modelos internacionais para uma linguagem própria que combina elementos globais com especificidades culturais brasileiras. Esta evolução reflete não apenas mudanças técnicas e orçamentárias, mas também uma maturação artística que permitiu aos cineastas brasileiros encontrar sua voz única dentro de um gênero dominado por Hollywood.
A fase do nacional-estrangeiro caracterizou as primeiras tentativas brasileiras de produzir cinema de ação nas décadas de 1980 e 1990. Produções como “O Justiceiro” (1987) e “O Caso dos Irmãos Neves” (1968) buscavam replicar fórmulas hollywoodianas sem a infraestrutura ou expertise necessárias, resultando frequentemente em personagens estereotipados e sequências de ação pouco convincentes. Neste período, os personagens de ação brasileiros eram frequentemente cópias desbotadas de arquétipos internacionais – o justiceiro solitário, o policial incorruptível, o criminoso sem nuance.
A limitação não estava apenas nos recursos técnicos, mas na falta de uma compreensão profunda de como a ação pode servir à narrativa cultural específica. Personagens eram frequentemente escritos como se estivessem em um contexto americano ou europeu, ignorando as particularidades sociais, políticas e culturais brasileiras que dariam autenticidade às suas jornadas.
A ruptura contemporânea começou no início dos anos 2000 com filmes como “Cidade de Deus” (2002) e “Tropa de Elite” (2007), que demonstraram que o cinema de ação brasileiro poderia ser tanto comercialmente viável quanto artisticamente significativo quando enraizado em realidades locais. Estes filmes não apenas mostraram violência; contextualizaram-na dentro de estruturas sociais específicas, criando personagens cujas escolhas faziam sentido dentro de seus ambientes.
O sucesso internacional de “Cidade de Deus” provou que a autenticidade cultural brasileira não era barreira para o público global, mas sim seu maior atrativo. Personagens como o “Boneco” (Alexandre Rodrigues) e “Zé Pequeno” (Leandro Firmino) tornaram-se icônicos justamente por sua complexidade humana e especificidade cultural, desafiando a noção de que filmes brasileiros precisavam apagar suas raízes para ter apelo internacional.
O cinema de ação autoral representa a fase atual e mais madura do gênero no Brasil. Diretores como José Padilha (“Tropa de Elite”), Wagner Moura (“Marighella”) e Halder Gomes (“A Máquina”) desenvolveram estilos pessoais distintos onde a ação serve a temas sociais e políticos específicos, com personagens cuidadosamente construídos que funcionam como veículos para discussões mais amplas sobre justiça, desigualdade e identidade nacional.
Neste período, o gênero de ação brasileiro deixou de ser visto como entretenimento menor e passou a ser reconhecido como forma legítima de expressão artística. O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e outros festivais importantes passaram a incluir categorias específicas para filmes de ação, reconhecendo a complexidade técnica e narrativa envolvida na construção destas obras.
Esta evolução também refletiu mudanças na indústria. A entrada de plataformas de streaming como Netflix, Globoplay e Star+ no mercado brasileiro trouxe investimentos significativos para produções de ação de qualidade, permitindo que cineastas brasileiros desenvolvessem narrativas mais ambiciosas com orçamentos compatíveis com suas visões artísticas. Séries como “3%” e filmes como “A Máquina” demonstraram que o Brasil pode produzir conteúdo de ação de classe mundial quando os profissionais têm recursos adequados e liberdade criativa.
Desafios contemporâneos: equilíbrio entre autenticidade e entretenimento
Apesar dos avanços significativos, a construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro enfrenta desafios complexos que exigem equilíbrio delicado entre autenticidade artística, responsabilidade social e demandas comerciais. Estes desafios não são únicos ao Brasil, mas assumem características específicas dentro de nosso contexto cultural, econômico e político.
O financiamento sustentável permanece o maior obstáculo para a consistência na qualidade do gênero. Produções como “Tropa de Elite” e “Marighella” demonstraram que filmes de ação brasileiros podem ser tanto criticamente aclamados quanto comercialmente bem-sucedidos, mas a falta de um sistema de financiamento estável faz com que cada projeto seja uma batalha isolada. Isto afeta diretamente a construção de personagens, pois roteiristas e atores frequentemente precisam comprometer sua visão artística para se adequar a orçamentos limitados e cronogramas apertados.
A dependência de editais públicos e patrocínios privados cria pressões externas que podem influenciar negativamente a complexidade dos personagens. Narrativas que abordam temas sensíveis como corrupção policial ou violência de estado podem enfrentar dificuldades para conseguir financiamento, levando a personagens mais simplificados e menos desafiadores do ponto de vista social.
A formação de profissionais especializados é outro desafio crítico. O Brasil ainda carece de escolas e programas de formação específicos para as demandas do cinema de ação contemporâneo. Enquanto países como EUA, Reino Unido e Coreia do Sul possuem sistemas robustos de formação para especialistas em combate coreografado, efeitos práticos e preparação física para atores, o Brasil depende frequentemente de profissionais que aprenderam através da prática ou buscaram formação no exterior.
Esta lacuna formativa afeta diretamente a qualidade da construção de personagens, pois limita as opções disponíveis para diretores e atores que buscam criar ação autêntica e significativa. A falta de coreógrafos de luta especializados em contextos brasileiros, por exemplo, pode levar a sequências que parecem genéricas ou que não refletem as realidades específicas do combate urbano no Brasil.
A pressão por representatividade aumentou significativamente com o crescimento dos movimentos sociais e a maior conscientização sobre diversidade no audiovisual. O público brasileiro demanda hoje personagens de ação que reflitam a verdadeira diversidade do país – racial, de gênero, de classe social, de orientação sexual e de origem regional. Esta demanda é justa e necessária, mas cria desafios reais para roteiristas e diretores que precisam equilibrar a representatividade com a autenticidade narrativa.
O risco é cair em representações superficiais ou tokenismo, onde personagens diversos são incluídos apenas para cumprir cotas, sem profundidade ou desenvolvimento adequados. As melhores produções brasileiras contemporâneas, como “A Máquina” e episódios da série “3%”, demonstraram que é possível criar personagens diversos e complexos quando há pesquisa rigorosa, consultoria com comunidades representadas e tempo suficiente para desenvolvimento das histórias.
O equilíbrio global-local é talvez o desafio mais sutil mas crucial. Com o aumento de investimentos internacionais em produções brasileiras, surge a pressão para criar personagens e narrativas que tenham apelo global, o que pode levar à diluição das especificidades culturais que tornam o cinema brasileiro único. A tentação de criar personagens mais “universais” (ou seja, mais próximos de arquétipos hollywoodianos) pode comprometer a autenticidade que tornou filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” tão impactantes internacionalmente.
Os profissionais brasileiros mais bem-sucedidos aprenderam que o caminho não é apagar as particularidades culturais para agradar plateias globais, mas encontrar formas de tornar essas particularidades acessíveis e significativas para públicos diversos. Personagens como o Capitão Nascimento em “Tropa de Elite” ou Marighella em seu filme biográfico funcionam internacionalmente justamente por sua especificidade brasileira, não apesar dela.
Inovações técnicas e artísticas: o futuro da ação brasileira
Enquanto navega por seus desafios, a construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro está experimentando inovações significativas que combinam tecnologia avançada com abordagens artísticas profundamente enraizadas na cultura nacional. Estas inovações não buscam meramente replicar técnicas internacionais, mas desenvolver uma linguagem visual e narrativa própria que possa competir globalmente enquanto mantém sua essência brasileira.
A integração de técnicas tradicionais emerge como tendência significativa nas produções brasileiras contemporâneas. Em vez de depender exclusivamente de efeitos digitais caros, diretores e preparadores de elenco estão incorporando artes marciais e técnicas de combate tradicionais brasileiras em suas coreografias. O capoeira, jiu-jitsu brasileiro e até mesmo técnicas de defesa pessoal desenvolvidas em contextos específicos como o combate em favelas estão sendo integradas de forma orgânica nas sequências de ação.
No filme “A Máquina”, por exemplo, as lutas não são coreografias genéricas de Hollywood; refletem a realidade de operários que aprenderam a se defender nas ruas e nos sindicatos, usando ferramentas de trabalho como armas improvisadas e técnicas de combate baseadas em sua experiência física laboral. Esta abordagem não apenas aumenta a autenticidade, mas também cria uma identidade visual única para o cinema de ação brasileiro.
A tecnologia como aliada da narrativa está transformando a forma como personagens são construídos e desenvolvidos. O uso de motion capture avançado, técnicas de pré-visualização digital e softwares de edição de ponta está permitindo que cineastas brasileiros criem sequências de ação mais complexas e emocionalmente significativas dentro de orçamentos realistas.
Em “Marighella”, técnicas de reconstrução digital foram usadas não para criar efeitos espetaculares, mas para recriar ambientes históricos com precisão, permitindo que os atores interagissem com espaços que já não existem fisicamente. Esta autenticidade ambiental serve diretamente à construção dos personagens, imersando-os em contextos históricos precisos que informam suas escolhas e motivações.
A narrativa transmídia está expandindo as possibilidades de construção de personagens além dos limites tradicionais do cinema e da televisão. Séries como “3%” não apenas contam histórias em episódios, mas desenvolvem universos expandidos através de conteúdo digital, podcasts e experiências imersivas que aprofundam a psicologia e a história dos personagens. Esta abordagem permite explorar camadas de complexidade que não caberiam em um filme de duas horas, criando personagens mais ricos e multidimensionais.
“A tecnologia deve servir à história, não o contrário. Nossas inovações técnicas no cinema de ação brasileiro só são válidas se ajudarem a contar melhor as histórias que precisamos contar sobre nosso país e nosso povo.”
Esta perspectiva, compartilhada por diretores brasileiros que trabalham tanto em cinema quanto em streaming, reflete uma maturidade artística que entende a tecnologia como ferramenta narrativa, não como fim em si mesma.
A formação de novas gerações completa este panorama de inovação. Iniciativas como oficinas do Festival de Cinema de Gramado, programas de residência artística em parceria com plataformas de streaming e cursos especializados em universidades brasileiras estão formando uma nova geração de profissionais do cinema de ação que combinam técnica internacional com sensibilidade cultural brasileira.
Estes novos talentos estão trazendo perspectivas frescas para a construção de personagens, questionando estereótipos tradicionais e explorando narrativas que antes eram consideradas marginalizadas no gênero de ação. Personagens femininas complexas, protagonistas indígenas, heróis LGBTQIA+ e figuras de terceira idade estão gradualmente encontrando espaço nas produções brasileiras de ação, enriquecendo o espectro narrativo do gênero.
A importância do contexto regional: Brasil como diversidade narrativa
A construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro ganha profundidade e autenticidade quando reconhece a imensa diversidade regional do país. O Brasil não é uma nação monolítica; é um mosaico de culturas, histórias e realidades sociais que exigem abordagens narrativas específicas para cada contexto. Profissionais brasileiros estão cada vez mais conscientes de que um personagem de ação do Nordeste terá motivações, habilidades e desafios completamente diferentes de um personagem da Amazônia ou do Sul do país.
O Nordeste como território narrativo tem sido particularmente importante para a evolução do cinema de ação brasileiro. Produções como “Bacurau” (2019) demonstraram que o sertão nordestino pode ser cenário não apenas para dramas sociais, mas para narrativas de ação complexas e politicamente engajadas. Os personagens de “Bacurau” não são tipos genéricos; suas habilidades de combate, motivações e até mesmo sua forma de se mover refletem séculos de resistência cultural e adaptação a condições adversas.
A construção destes personagens envolve pesquisa profunda com comunidades locais, estudo de técnicas de sobrevivência regionais e compreensão das tensões históricas entre poder central e periferias. O resultado são figuras que respiram a cultura nordestina – do uso de armas improvisadas às estratégias de combate coletivo baseadas em tradições comunitárias.
A Amazônia como fronteira narrativa oferece possibilidades únicas para o gênero de ação brasileiro. Personagens que operam neste contexto enfrentam desafios específicos – não apenas antagonistas humanos, mas também o ambiente hostil, a complexidade política do desmatamento ilegal e as tensões entre culturas indígenas, ribeirinhos e interesses econômicos globais.
Produções como “Os Desafinados” (2008) e “Paraíso Perdido” (2022) exploraram estas dinâmicas, criando personagens de ação que são tanto guerreiros quanto guardiões de conhecimentos tradicionais. A construção destes personagens exige colaboração com líderes indígenas, pesquisa sobre técnicas de sobrevivência amazônicas e compreensão das estruturas de poder locais que moldam as motivações dos protagonistas e antagonistas.
O Sul e o Centro-Oeste: fronteira e ruralidade apresentam outra dimensão importante para o cinema de ação brasileiro. Narrativas envolvendo contrabando na fronteira com o Paraguai, conflitos agrários no Centro-Oeste ou a violência urbana em cidades como Curitiba exigem personagens que reflitam realidades sociais específicas destas regiões. O policial de fronteira terá formação e desafios diferentes do investigador urbano do Rio de Janeiro ou do ativista ambiental da Amazônia.
Esta regionalização não é apenas geográfica; é cultural e histórica. Personagens do Sul frequentemente carregam influências gaúchas, ucranianas ou polonesas em suas personalidades e formas de resolver conflitos. Personagens do Centro-Oeste podem incorporar elementos do sertanejo ou das culturas indígenas locais em suas jornadas. Reconhecer e respeitar estas diferenças é essencial para criar personagens autênticos que ressoem com plateias locais enquanto mantêm interesse global.
A metrópole diversa completa este panorama regional. As grandes cidades brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador – não podem ser tratadas como cenários genéricos de ação. Cada uma tem sua própria geografia social, seus conflitos específicos e suas formas únicas de violência e resistência. Um personagem de ação em São Paulo enfrentará desafios corporativos e de tráfico internacional; no Rio de Janeiro, as dinâmicas de favela e poder paralelo; em Salvador, tensões raciais e culturais específicas.
As melhores produções brasileiras contemporâneas entendem que a autenticidade vem desta especificidade regional. Personagens não são simplesmente “brasileiros”; são cariocas, paulistanos, baianos, nordestinos, amazônicos – e estas identidades informam profundamente suas escolhas, motivações e formas de agir sob pressão. Esta abordagem não apenas enriquece a narrativa, mas também democratiza a representação no cinema brasileiro, dando voz a realidades muitas vezes marginalizadas na indústria do entretenimento.
O legado cultural: personagens que transcendem a tela
Quando a construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro alcança seu potencial máximo, estes personagens transcendem seus filmes e séries para se tornarem parte do imaginário cultural nacional, influenciando debates sociais, inspirando novas gerações de artistas e até mesmo impactando políticas públicas. Este legado vai muito além do entretenimento; torna-se parte da conversa nacional sobre quem somos como sociedade e que tipo de heróis (e vilões) escolhemos para representar nossas lutas e aspirações.
Influência no debate público é talvez o impacto mais significativo de personagens bem construídos no cinema de ação brasileiro. O Capitão Nascimento de “Tropa de Elite” tornou-se mais do que um personagem de ficção; transformou-se em símbolo de um debate nacional complexo sobre segurança pública, violência policial e guerra às drogas. Sua popularidade gerou discussões em universidades, congressos e até mesmo no Congresso Nacional, demonstrando o poder do cinema para influenciar o discurso político.
Personagens como Marighella, embora retratados em contextos históricos específicos, continuam relevantes em debates contemporâneos sobre resistência, justiça social e os limites da luta armada. A construção complexa deste personagem – nem totalmente herói, nem totalmente vilão – permite que diferentes gerações e grupos políticos encontrem significados diversos em sua história, mantendo-a viva no imaginário coletivo brasileiro.
Inspiração para novos artistas é outro legado importante. Jovens atores, roteiristas e diretores brasileiros frequentemente citam personagens de ação nacionais como inspiração para suas carreiras. A performance de Wagner Moura como Capitão Nascimento abriu caminho para uma geração de atores brasileiros que entenderam que personagens complexos de ação podem ser tanto comercialmente viáveis quanto artisticamente respeitáveis.
Este impacto vai além das artes cênicas. Profissionais de áreas como direito, sociologia e até mesmo segurança pública relatam ter sido influenciados por personagens de filmes brasileiros de ação a buscar carreiras que buscam soluções para os problemas sociais retratados nestas narrativas. O cinema não apenas reflete a realidade; pode inspirar mudanças concretas quando seus personagens tocam o coração e a mente do público.
O patrimônio cultural audiovisual completo este legado. Personagens como o Boneco de “Cidade de Deus”, Zé Pequeno de “Cidade de Deus” e o Capitão Nascimento de “Tropa de Elite” tornaram-se parte do patrimônio cultural brasileiro, estudados em escolas, analisados por acadêmicos e celebrados em festivais internacionais. Estas figuras não são apenas entretenimento; são espelhos que refletem as complexidades, contradições e esperanças do Brasil contemporâneo.
A preservação deste patrimônio é crucial. Iniciativas como o acervo da Cinemateca Brasileira e programas de educação cinematográfica em escolas públicas estão trabalhando para garantir que estas narrativas e seus personagens continuem acessíveis às futuras gerações, não apenas como obras de entretenimento, mas como documentos culturais que capturam momentos específicos da história brasileira através da lente do gênero de ação.
Neste sentido, a construção de personagens no audiovisual de ação brasileiro assume uma importância que transcende o cinema em si. Quando bem executada, esta construção não apenas entretém; educa, provoca reflexão e contribui para a construção de uma identidade nacional mais complexa e matizada. Os melhores personagens de ação brasileiros não são apenas figuras que lutam em telas; são vozes que falam sobre quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir como sociedade.
O desafio futuro será manter esta relevância cultural enquanto o gênero evolui com novas tecnologias e demandas de mercado. Mas se a história recente do cinema brasileiro serve de guia, os profissionais deste país continuarão encontrando formas de usar o gênero de ação não apenas para entreter, mas para contar histórias profundamente humanas que ressoam com a alma do Brasil.




