O papel do respeito entre DJs e produtores
Como a ética profissional e o reconhecimento mútuo constroem uma indústria musical mais saudável e sustentável na era digital
A cena musical eletrônica vive um paradoxo interessante na era digital. Nunca houve tanta acessibilidade tecnológica, tantas ferramentas de produção, tantas plataformas de distribuição. Um jovem produtor pode criar música profissional em um laptop com software acessível, um DJ pode construir uma carreira global através das redes sociais, e artistas independentes podem alcançar audiências sem a necessidade de grandes gravadoras. Mas neste cenário de abundância técnica, surge uma escassez preocupante: a escassez de respeito profissional entre colegas da mesma cena.
Conversar com veteranos da indústria como Gilles Peterson ou DJ Marky revela uma nostalgia não pelo equipamento analógico ou pelos clubes underground dos anos 90, mas pela cultura de respeito que permeava a cena naquela época. Naquela era pré-digital, onde as barreiras de entrada eram altas e o acesso à informação era limitado, o conhecimento era transmitido através de relações humanas genuínas. DJs mais experientes ensinavam técnicas de mixing a iniciantes nos bastidores dos clubes; produtores compartilhavam segredos de masterização em conversas após as festas; promotores valorizavam o trabalho dos artistas pagando corretamente e tratando-os com dignidade.
Hoje, em um mundo onde qualquer pessoa pode se autointitular DJ ou produtor com apenas alguns cliques em aplicativos de celular, a cultura do respeito mútuo enfrenta desafios sem precedentes. Mas este não é um fenômeno inevitável da modernidade – é uma escolha coletiva que podemos reverter através da conscientização, da educação e da prática diária de valores éticos profissionais.
A história não contada: como o respeito construiu a cena eletrônica
Para entender a importância do respeito na cena atual, precisamos voltar às origens da música eletrônica como fenômeno cultural. Nos clubes underground de Chicago e Detroit nos anos 1980, a cena house e techno não era apenas sobre música; era sobre comunidade. DJs como Frankie Knuckles e Derrick May não apenas tocavam discos – eles criavam espaços seguros onde pessoas marginalizadas podiam ser livres para expressar sua identidade através da dança.
“Naquela época, não havia Instagram, não havia SoundCloud. O respeito era construído através de ações, não de palavras em redes sociais. Se você respeitava um DJ, você ia aos seus sets, você apoiava seus lançamentos, você aprendia com ele nos bastidores. O conhecimento era um presente, não um produto.”
Esta reflexão de Tony Humphries, um dos pioneiros do house music em Nova York, ilustra como o respeito era uma moeda mais valiosa do que o dinheiro naquela época. Humphries, que começou sua carreira no lendário Club Zanzibar em Newark, lembra como DJs veteranos como David Mancuso e Larry Levan abriam as portas de seus estúdios para jovens aspirantes, ensinando não apenas técnicas de mixing, mas também a importância de honrar a música e o público.
No Reino Unido, a cena drum’n’bass dos anos 1990 seguiu um padrão similar. Produtores como Goldie e LTJ Bukem não apenas competiam por reconhecimento; eles colaboravam, compartilhavam equipamentos e criavam coletivos como o Metalheadz e Good Looking Records que funcionavam como escolas informais para novos talentos. A cultura pirate radio, que foi fundamental para a disseminação do jungle e drum’n’bass, operava com base em princípios de respeito mútuo – DJs respeitavam os horários uns dos outros, os proprietários dos transmissores protegiam os operadores, e toda a comunidade se unia para manter as estações no ar apesar da perseguição policial.
Este legado histórico não é apenas nostálgico; é um manual prático para a cena contemporânea. A indústria musical eletrônica foi construída por pessoas que entendiam que o sucesso individual está intrinsecamente ligado ao fortalecimento coletivo da comunidade. Quando um artista é respeitado, toda a cena cresce; quando um produtor é valorizado, a qualidade musical melhora para todos.
O impacto da democratização tecnológica: bênção e maldição
A revolução digital trouxe benefícios inegáveis para a música eletrônica. Softwares como Ableton Live, Logic Pro e FL Studio democratizaram a produção musical, permitindo que pessoas de qualquer lugar do mundo criem música profissional sem investir milhares em equipamentos analógicos. Plataformas como Beatport, Bandcamp e Spotify facilitaram a distribuição global, permitindo que artistas independentes alcancem audiências sem intermediários. Redes sociais como Instagram e TikTok criaram novas formas de promover música e construir comunidades de fãs.
Mas esta mesma democratização trouxe desafios éticos significativos. A facilidade de acesso às ferramentas de produção criou uma saturação do mercado, onde milhares de novos “artistas” surgem diariamente, muitos sem o devido treinamento técnico ou compreensão cultural do gênero que estão representando. A pressão por conteúdo constante nas redes sociais levou alguns DJs a priorizar a quantidade sobre a qualidade, compartilhando sets genéricos em vez de desenvolver um som próprio. A corrida pelo engajamento digital incentivou comportamentos antiéticos como o uso indevido de samples sem crédito, o plágio de ideias criativas e a autopromoção excessiva em detrimento do trabalho alheio.
Um dos problemas mais sérios que surgiu nesta nova era é a desvalorização do trabalho artístico. Quando qualquer pessoa pode criar música em um laptop, o valor percebido do trabalho profissional de DJs e produtores experientes diminui. Eventos oferecem cachês irrisórios a artistas consagrados, justificando com “exposição nas redes sociais”. Promotores cancelam shows de última hora sem consideração pelo trabalho de preparação dos artistas. Fãs esperam que música de qualidade seja disponibilizada gratuitamente, sem reconhecer o tempo, investimento e expertise necessários para sua criação.
Esta cultura de desvalorização não afeta apenas os artistas individuais; prejudica toda a indústria musical. Quando o trabalho não é valorizado financeiramente e emocionalmente, a qualidade artística tende a diminuir. Produtores deixam de investir em equipamento profissional e estúdios adequados; DJs reduzem o tempo de preparação dos sets para focar em conteúdo para redes sociais; e o ciclo vicioso de música genérica e performances medíocres se perpetua.
O código não escrito: princípios éticos fundamentais na cena DJ/produção
Apesar dos desafios da era digital, existe um código ético não escrito que ainda guia os profissionais mais respeitados da cena eletrônica. Estes princípios não são novos; foram transmitidos de geração em geração através de mentoria e observação, mas precisam ser reforçados e adaptados ao contexto contemporâneo.
1. O respeito pelo trabalho alheio começa com o crédito adequado
Um dos princípios mais básicos, mas frequentemente violados, é o crédito adequado às fontes de inspiração e colaboração. Quando um DJ toca uma música em seu set, ele deve saber e, quando possível, anunciar o nome do artista e do track. Quando um produtor sampleia uma música ou se inspira no trabalho de outro artista, ele deve dar o devido crédito, tanto nas notas de lançamento quanto nas redes sociais.
DJ Marky, figura consagrada na cena drum’n’bass brasileira e internacional, exemplifica esta prática em sua carreira de mais de 25 anos. Em suas apresentações, Marky sempre anuncia os nomes dos produtores cujas músicas está tocando, muitas vezes contando histórias sobre como descobriu aquele track ou sobre a relação pessoal com o artista. Esta prática não apenas honra o trabalho alheio, mas também educa o público sobre a riqueza da cena musical.
“Muitos DJs jovens hoje em dia não sabem nem o nome das músicas que estão tocando. Eles seguem playlists prontas do Beatport ou do Spotify. Mas o verdadeiro respeito começa quando você pesquisa, quando você conhece a história por trás de cada track, quando você sabe quem fez aquela música e qual foi sua jornada até ali.”
A prática de creditar não se limita às performances ao vivo. Nas redes sociais, quando um DJ compartilha um vídeo de seu set, ele deve listar as músicas tocadas. Quando um produtor cria um remix ou se inspira no trabalho de outro artista, ele deve mencionar estas influências em suas descrições. Esta transparência não apenas demonstra ética profissional, mas também constrói credibilidade junto ao público e aos colegas.
2. A escuta ativa como forma de respeito
Na era do streaming e da atenção fragmentada, a capacidade de ouvir verdadeiramente se tornou uma habilidade rara e valiosa. Para DJs e produtores, a escuta ativa não é apenas uma técnica musical; é uma forma profunda de respeito mútuo.
Quando dois DJs se encontram para uma back-to-back set, o respeito mútuo se manifesta na capacidade de ouvir as escolhas musicais do parceiro, de sentir a energia que ele está construindo, de complementar em vez de competir. Quando um produtor veterano ouve o trabalho de um iniciante, o respeito se mostra na atenção genuína aos detalhes, nas críticas construtivas em vez de julgamentos apressados.
Gilles Peterson, curador musical britânico com mais de quatro décadas de carreira, é conhecido por sua capacidade de ouvir centenas de demos semanais de artistas desconhecidos. Peterson não apenas ouve superficialmente; ele pesquisa o contexto cultural, entende as influências, e muitas vezes se torna mentor de talentos que descobre. Sua rádio Worldwide FM e seu selo Brownswood Recordings são testemunhos vivos de como a escuta ativa pode descobrir e desenvolver novos talentos.
A escuta ativa também se manifesta no respeito pelo espaço do outro. Em festivais e clubes, DJs respeitosos chegam cedo para ouvir os sets de seus predecessores, entendendo a energia que está sendo construída e preparando-se para continuar a narrativa musical. Produtores em estúdios colaborativos respeitam o processo criativo uns dos outros, evitando interrupções desnecessárias e valorizando os momentos de concentração necessários para a criação artística.
3. A valorização justa do trabalho artístico
Talvez o aspecto mais crítico do respeito profissional na cena atual seja a valorização justa do trabalho artístico. Muitos promotores e organizadores de eventos ainda operam com a mentalidade de que DJs e produtores devem trabalhar principalmente por “exposição” ou “oportunidades de networking”, especialmente quando são artistas iniciantes.
Esta mentalidade é profundamente prejudicial por duas razões principais: primeiro, ela perpetua a ideia de que música eletrônica não tem valor econômico real; segundo, ela cria um ambiente onde apenas artistas com recursos financeiros independentes podem sobreviver, excluindo talentos de classes sociais mais baixas.
O respeito pelo trabalho artístico começa com o pagamento justo. Um cachê adequado não é apenas uma questão financeira; é um reconhecimento do valor do tempo, expertise e energia emocional que um artista investe em sua performance. Isso inclui não apenas o tempo no palco, mas também as horas de preparação, viagem, equipamento e o investimento contínuo em atualização técnica e musical.
Mas a valorização vai além do aspecto financeiro. O respeito se manifesta também em condições de trabalho dignas: horários realistas que consideram o ritmo circadiano dos artistas, espaços adequados para descanso antes e depois das apresentações, equipe técnica profissional que respeita o equipamento e as necessidades específicas de cada DJ.
“Já toquei em eventos onde o cachê era bom, mas fui tratado como um número – cheguei e ninguém sabia meu nome, não havia local para descansar, o som estava mal configurado e ninguém se importava com minha opinião. E já toquei em festas pequenas onde o cachê foi modesto, mas fui recebido como família, todos conheciam meu trabalho, e o cuidado com os detalhes mostrava um respeito genuíno. O segundo tipo de evento é onde quero estar, mesmo que pague menos.”
Esta reflexão de uma DJ brasileira anônima, com carreira internacional, ilustra como o respeito profissional transcende o aspecto financeiro. Artistas valorizam ser tratados como profissionais sérios, não como entretenimento descartável.
A mentoria como prática de respeito intergeracional
Uma das formas mais poderosas de demonstrar respeito na cena musical eletrônica é através da mentoria. DJs e produtores experientes que dedicam tempo para orientar iniciantes não apenas transmitem conhecimento técnico, mas também passam adiante os valores éticos que sustentam a cena.
No Brasil, o projeto “Batekoo Sessions” criado por Coruja BC1 exemplifica esta prática. O DJ e produtor paulista, com mais de 15 anos de carreira na cena house e techno, organiza encontros regulares onde artistas experientes compartilham experiências com jovens produtores. Estes encontros não são apenas sobre técnicas de produção ou DJing; são sobre ética profissional, sobre como construir carreiras sustentáveis, sobre o respeito mútuo na indústria.
A mentoria eficaz não é uma relação hierárquica onde o “mestre” impõe seu conhecimento ao “aprendiz”. É um diálogo respeitoso onde o mentor ouve as aspirações do mentorado, entende seu contexto cultural e social, e adapta seu conhecimento às necessidades específicas da nova geração. Um bom mentor não cria cópias de si mesmo; ele ajuda o mentorado a descobrir sua própria voz artística enquanto aprende os princípios éticos fundamentais.
Na cena internacional, figuras como Carl Cox e Nina Kraviz têm sido conhecidas por apoiar talentos emergentes através de seus selos e eventos. Cox, através de seu selo Intec Records, descobriu e desenvolveu artistas como Nicole Moudaber e Steve Lawler, oferecendo não apenas plataforma para lançamentos, mas também orientação sobre como navegar a indústria de forma ética e sustentável.
Mas a mentoria não precisa ser formal ou institucionalizada. Pequenos gestos no dia a dia constroem uma cultura de respeito: um DJ veterano que dedica 15 minutos após seu set para conversar com um fã que quer aprender DJing; um produtor que compartilha gratuitamente uma técnica específica em suas redes sociais; um promotor que reserva um horário cedo em seu evento para um artista local desconhecido experimentar o equipamento do palco principal.
Estes gestos aparentemente pequenos têm impacto profundo porque demonstram que o respeito não é uma abstração filosófica; é uma prática diária, uma escolha consciente de valorizar o próximo como igual, independentemente de seu nível de carreira ou reconhecimento atual.
O desafio das redes sociais: entre a autopromoção e o respeito coletivo
As redes sociais transformaram completamente a forma como DJs e produtores se promovem e se conectam com seu público. Plataformas como Instagram, TikTok e Facebook oferecem oportunidades sem precedentes para artistas independentes construírem suas carreiras sem depender de grandes gravadoras ou promotores tradicionais.
Mas esta mesma democratização trouxe desafios éticos complexos. A pressão constante por conteúdo, o algoritmo que recompensa o engajamento superficial, e a cultura de comparação incessante criaram um ambiente onde o respeito mútuo frequentemente cede lugar à autopromoção desenfreada.
Um dos problemas mais visíveis é a cultura do cancelamento na cena eletrônica. DJs jovens, ansiosos para construir seguidores, às vezes caem na armadilha de criticar publicamente artistas mais experientes, seja por suas escolhas musicais, seu estilo de vida ou suas opiniões políticas. Esta prática, que pode gerar engajamento imediato nas redes sociais, destrói a cultura de respeito intergeracional que sustentou a cena por décadas.
Outro desafio é a falta de autenticidade nas redes sociais. Muitos DJs e produtores criam personas digitais que não refletem sua realidade profissional, postando constantemente fotos de festas, jets privados e encontros com celebridades, enquanto sua realidade é a de artistas trabalhando duro em estúdios caseiros e tocando em pequenos clubes. Esta desconexão entre imagem digital e realidade artística não apenas engana o público, mas também cria expectativas irreais para novos artistas que entram na cena.
A solução não é abandonar as redes sociais, mas usá-las de forma ética e consciente. DJs respeitosos usam suas plataformas digitais para:
- Destacar o trabalho de outros artistas: Compartilhar tracks de colegas, anunciar eventos de amigos, promover lançamentos de produtores locais
- Educar o público: Explicar o processo criativo por trás de suas músicas, contar histórias sobre influências musicais, compartilhar conhecimentos técnicos
- Mantenha a autenticidade: Mostrar tanto os sucessos quanto os desafios da carreira artística, ser transparente sobre o trabalho por trás da imagem glamourosa
- Praticar a moderação: Não responder a críticas com ataques pessoais, manter discussões profissionais mesmo em desacordos artísticos
Artistas como Peggy Gou e Charlotte de Witte demonstraram como é possível construir carreiras globais nas redes sociais mantendo ética profissional e respeito mútuo. Gou, através de seu selo Gudu Records, constantemente promove artistas emergentes em suas redes sociais, enquanto de Witte usa sua plataforma para defender a igualdade de gênero na cena eletrônica, sempre com respeito aos colegas masculinos que apoiam esta causa.
O respeito como vantagem competitiva na cena contemporânea
Em um mercado musical cada vez mais saturado, onde milhares de novos artistas surgem diariamente, o respeito profissional não é apenas uma virtude ética; é uma vantagem competitiva estratégica. Artistas que constroem reputações baseadas no respeito mútuo, na ética profissional e na valorização do trabalho alheio tendem a ter carreiras mais longas, sustentáveis e gratificantes do que aqueles que priorizam apenas o sucesso imediato.
Do ponto de vista prático, o respeito traz benefícios tangíveis:
Oportunidades de colaboração: Produtores que respeitam o trabalho alheio são mais procurados para colaborações. Quando um artista tem reputação de ser profissional, ético e colaborativo, outros artistas querem trabalhar com ele não apenas por seu talento musical, mas por sua confiabilidade e caráter.
Networking de qualidade: O respeito atrai o tipo certo de conexões na indústria. Promotores sérios preferem trabalhar com artistas que honram seus compromissos e tratam todos com dignidade. Donos de clubes lembram DJs que foram profissionais mesmo em eventos pequenos. Produtores experientes abrem portas para artistas que demonstraram respeito por seu trabalho e pelo da comunidade.
Longevidade na carreira: A cena musical eletrônica é conhecida por suas modas passageiras e estrelas fugazes. Artistas que constroem carreiras com base no respeito e na ética tendem a ter longevidade porque seu valor não está apenas em um hit momentâneo, mas em sua reputação como profissionais sérios e confiáveis.
Impacto cultural duradouro: O respeito permite que artistas contribuam para o desenvolvimento da cena como um todo. Quando um DJ ou produtor é respeitado, sua influência vai além de suas próprias performances; ele se torna uma referência para novas gerações, seu legado influencia a direção artística do gênero.
Um exemplo contemporâneo desta dinâmica é o DJ e produtor alemão Dixon. Com uma carreira que atravessa mais de duas décadas, Dixon construiu uma reputação impecável através do respeito absoluto pelo público, pelos colegas e pela música. Seus sets longos e imersivos em clubes como o Berghain em Berlim não são apenas demonstrações de habilidade técnica; são atos de respeito pelo ouvinte, pela história do clube e pela cultura underground que o sustenta.
“O respeito não é algo que você ganha uma vez e mantém para sempre. É uma prática diária, uma escolha que você faz a cada interação, a cada set, a cada lançamento. Quando você respeita a cena, a cena respeita você de volta.”
Esta reflexão de Dixon, em uma entrevista para a Resident Advisor, resume perfeitamente como o respeito funcional como moeda de troca na economia cultural da música eletrônica. Não é um gesto ocasional ou uma estratégia de marketing; é o alicerce sobre o qual carreiras sustentáveis são construídas.
Práticas concretas para construir uma cultura de respeito
A teoria do respeito é bonita, mas sua implementação prática é o que realmente transforma a cena. Baseado em conversas com profissionais respeitados da indústria e em observação direta de cenas saudáveis ao redor do mundo, podemos identificar práticas concretas que qualquer DJ ou produtor pode adotar para construir uma cultura de respeito:
Para DJs iniciantes:
- Chegue cedo aos eventos onde você vai tocar: Use este tempo para ouvir os DJs anteriores, entender a energia da pista e conhecer a equipe técnica. Este gesto demonstra profissionalismo e respeito pelo evento como um todo.
- Aprenda os nomes das pessoas: Não apenas do promotor ou dono do clube, mas da equipe de som, segurança, bar e até outros DJs. Trate todos com o mesmo nível de respeito, independentemente de sua posição hierárquica.
- Seja generoso com o seu conhecimento: Quando outro DJ iniciante pede conselhos, compartilhe o que aprendeu. O sucesso não é um jogo de soma zero; quando ajudamos outros a crescerem, toda a cena se beneficia.
Para produtores em desenvolvimento:
- Credite todas as suas influências: Se uma música foi inspirada por outro artista, mencione isso. Se você sampleou um elemento de uma música antiga, descubra os direitos autorais e dê o devido crédito.
- Seja paciente com seu desenvolvimento: Não compare sua carreira com a de artistas que têm anos de experiência. O respeito por si mesmo inclui reconhecer que o crescimento artístico é um processo que leva tempo.
- Solicite feedback construtivo: Em vez de apenas buscar elogios, peça a produtores experientes que critiquem seu trabalho de forma específica. Mostre que você valoriza o conhecimento alheio mais do que a validação superficial.
Para artistas estabelecidos:
- Crie oportunidades para artistas locais: Quando tocar em uma cidade nova, reserve um horário para um artista local abrir seu set. Quando organizar um evento próprio, inclua pelo menos um artista iniciante na programação.
- Seja transparente sobre seu processo: Compartilhe abertamente os desafios da carreira, as rejeições que recebeu, as técnicas que levou anos para dominar. Esta transparência humaniza sua jornada e inspira respeito genuíno em vez de inveja ou ressentimento.
- Defenda práticas éticas na indústria: Quando presenciar situações de desrespeito – seja um promotor que não paga artistas, um clube que trata mal a equipe, ou um colega que plágia trabalho alheio – use sua influência para promover mudanças, mesmo que isso signifique arriscar oportunidades profissionais.
Para promotores e organizadores de eventos:
- Pague todos os artistas de forma justa: Isso inclui artistas locais e iniciantes. Um cachê digno não é luxo; é reconhecimento do valor do trabalho artístico.
- Crie condições de trabalho adequadas: Espaço para descanso, alimentação decente, equipe técnica competente, e horários realistas que considerem o bem-estar dos artistas.
- Respeite os horários combinados: Se um DJ foi contratado para tocar das 23h às 1h, cumpra este horário. Cancelamentos de última hora ou mudanças significativas sem consulta prévia demonstram falta de profissionalismo e respeito.
A longo prazo: construindo uma cena mais saudável para as próximas gerações
Quando pensamos no respeito entre DJs e produtores, não estamos apenas falando sobre relações interpessoais individuais; estamos falando sobre a saúde coletiva de uma cena cultural que tem o potencial de transformar vidas e comunidades. A música eletrônica, em suas melhores manifestações, é uma força unificadora que transcende divisões sociais, econômicas e políticas.
Mas esta força só pode ser preservada se cultivarmos uma cultura de respeito que valorize a diversidade de vozes, estilos e experiências. Quando um jovem produtor de periferia sente que sua música é valorizada tanto quanto a de um artista internacional com milhões de seguidores; quando uma DJ mulher não precisa provar seu valor constantemente em um ambiente historicamente masculino; quando artistas de diferentes origens culturais são celebrados por suas contribuições únicas em vez de forçados a se adequar a padrões mainstream – é nestes momentos que a cena musical eletrônica cumpre seu verdadeiro potencial transformador.
A responsabilidade por esta transformação não recai apenas sobre os ombros de artistas individuais ou promotores específicos. É uma responsabilidade coletiva que inclui:
Educação formal e informal: Escolas de música, workshops comunitários, programas de mentoria estruturados que ensinem não apenas técnicas de produção e DJing, mas também ética profissional e história cultural da música eletrônica.
Políticas institucionais: Festivais e clubes adotando códigos de conduta claros que protejam artistas e público contra assédio, discriminação e exploração econômica. Associações de classe defendendo direitos trabalhistas específicos para músicos eletrônicos.
Consciência coletiva: A cena como um todo desenvolvendo mecanismos para reconhecer e celebrar artistas que exemplificam valores éticos, criando um padrão positivo para todos seguirem.
O caminho não é fácil. Existem interesses econômicos poderosos que lucram com a exploração artística e a cultura do descarte rápido. Mas a história nos mostra que mudanças são possíveis quando profissionais comprometidos escolhem agir com integridade mesmo em face de pressões contrárias.
A cena house de Chicago nos anos 1980 sobreviveu à pobreza, à discriminação racial e à falta de apoio institucional porque os pioneiros como Frankie Knuckles e Marshall Jefferson priorizaram o respeito pela comunidade acima do sucesso individual. A cena drum’n’bass britânica dos anos 1990 permaneceu vibrante mesmo com perseguição policial e falta de apoio da mídia mainstream porque artistas como Goldie e LTJ Bukem construíram redes de apoio mútuo baseadas no respeito pelo trabalho artístico.
Estes exemplos não são apenas lições históricas; são modelos práticos para a cena contemporânea. Eles demonstram que mesmo em condições adversas, é possível construir uma cultura musical saudável quando o respeito mútuo é colocado no centro das relações profissionais.
O convite para a ação: cada escolha conta
Neste momento, enquanto você lê este texto, você tem uma escolha a fazer. Você pode ver o respeito como um ideal abstrato, algo que pertence ao passado ou a artistas mais consagrados, ou você pode reconhecer que cada interação, cada postagem nas redes sociais, cada set, cada conversa nos bastidores é uma oportunidade para construir ou destruir a cultura que queremos para a cena musical eletrônica.
Não estou sugerindo que todos devam ser perfeitos ou que nunca cometemos erros. Todos já fomos culpados de autopromoção excessiva, de não dar o devido crédito, de nos concentrar tanto em nossa carreira que esquecemos de apoiar colegas. A questão não é a perfeição imediata, mas o compromisso diário de fazer escolhas mais conscientes, mais respeitosas.
Na próxima vez que você preparar um set, reserve cinco minutos para pesquisar os artistas cujas músicas você vai tocar, aprenda um pouco sobre suas histórias, e compartilhe este conhecimento com seu público. Na próxima vez que produzir uma música, verifique cuidadosamente se você está creditando todas as suas influências e samples adequadamente. Na próxima vez que organizar um evento, reserve um horário e um orçamento dignos para pelo menos um artista local ou iniciante.
Estas pequenas ações, multiplicadas por milhares de profissionais ao redor do mundo, têm o poder de transformar completamente a cena musical eletrônica. Elas podem criar um ambiente onde o talento é reconhecido independentemente de conexões ou recursos econômicos, onde a colaboração é mais valorizada que a competição, onde a música é celebrada não apenas pelo seu valor comercial, mas pelo seu poder de conectar humanos através da batida.
O respeito entre DJs e produtores não é apenas uma questão de etiqueta profissional; é uma declaração de valores sobre o tipo de cena que queremos construir para as próximas gerações. É a escolha consciente de valorizar a humanidade por trás da música tanto quanto a música em si mesma.
Quando olhamos para os verdadeiros pioneiros da música eletrônica – de Frankie Knuckles a Derrick May, de LTJ Bukem a Carl Cox – o que mais os define não é apenas sua habilidade técnica ou seus sucessos comerciais, mas a forma como trataram seus colegas, seus mentores e suas comunidades. Eles entenderam intuitivamente que o verdadeiro legado de um artista não é medido em streams ou cachês, mas em quantas vidas ele tocou positivamente através de seu trabalho e seu caráter.
Esta é a herança que recebemos e que temos a responsabilidade de preservar. Não através de discursos grandiosos ou manifestos teóricos, mas através de ações diárias, escolhas concretas, pequenos gestos de reconhecimento e valorização do outro. Porque no final, quando a última batida ecoar e as luzes do clube se apagarem, o que restará não serão apenas as músicas que tocamos, mas a cultura que construímos juntos através do respeito mútuo.




